terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Retrato nas páginas de um diário

Era uma manhã. O sol já ia alto. E eu, gélida e pálida olhava o mar. Dele já não conseguia tirar partido e, a moléstia e solidão, já me consumiam. Tinha acabado de vir de uma das piores fases da minha vida e confrontar frente a frente, peito a peito a desonestidade que o tempo me aguardava para este preciso dia. Eu já nem incluo no meu dicionário a palavra "azar", pois tenho a certeza que nada na minha vida necessitará de a utilizar. Os próprios medos e fissuras que me trespassam são todos sinónimos dessa palavra, e para completar o meu "consultor mudo" prefiro inserir palavra a palavra, rabisco a rabisco os significados de tão protestantes enigmas. Congelei. Uma voz pálida e quebradiça ecoou nos mais profundos cantos do infinito. Não conseguia perceber de onde vinha, para onde se dirigia e, muito honestamente o que dizia. Apenas se soltavam súbitos murmúrios, códigos que não conseguia decifrar. Foi então que voltei a face para o meu diário, no qual tentava escrever algo que me saísse da alma, e para meu espanto deparo-me com uma nítida e honesta frase: "O mar e o céu difundiram-se num só, e tu difundir-te-ás também". Pensei o que seria, remexia o meu puzzle cerebral e as peças acabaram por se encaixar na perfeição como se fossem comandadas por um robot. Era a minha hora. A hora de o meu espírito e a minha alma terrena se difundirem num só. Do alto, do leve e altíssimo céu, surgiu um anjo. Melhor que isso. Um Deus. Era um Deus, eu sentia que sim e nada, mesmo nada conseguia contrariar os meus pensamentos. "Depois de tanta dor e de tanto sofrimento, com certeza que deve achar que mereço um lugar calmo, solene e sagrado", pensava eu, gesticulando os lábios tremulamente com um misto de alegria e um arrepio que me subia pela espinha acima. Uma mão dirigiu-se na minha direcção para me auxiliar, e outra empurrou-me por trás para dar impulso à minha entrada. O tempo não se enganava e o dia já estava contado. Uma nova vida, um novo reino, uma nova casa me tinha sido ofertada, e eu nunca mais esquecerei todos estes "deliciosos" momentos, como um sinal de uma passageira e terrena vida de fraco valor.

in Retrato nas páginas de um diário, Ana Neves

3 comentários:

  1. wow... que posso eu dizer. Coisas á Ana, que deixam as pessoas sem palavras. Concegues perceber tudo o que gira no mundo, todas as pessoas, todos os objectos. Concegues pôr-te no lugar de outros que não conseguem pôr-se no teu e lês os seus corações. Obrigada por tudo o que fizeste por mim no ano passado, nao ha nada que possa dizer, para te agradecer, foste a minha caixa de segredos. AMOTE IMENSO...

    ResponderEliminar
  2. Parabéns, Miriam! A página , no seu conjunto, é muito bonita!!! Continua...é um privilégio para mim poder acompanhar-te ! (Temos é de controlar os erros ortográficos da "nossa" Carolina...)
    MGraça Oliveira

    ResponderEliminar