
Aclarou o dia, a manhã nasceu e um novo ser resplandeceu. Chega de perguntas. Basta de conversas. Toma atitudes e não as deixes perdidas, dispersas. Porque amanhã é um novo dia, e nem eu nem tu sabemos, se o que queremos algum dia alcançaremos.


Saí de casa com a certeza do que levava comigo; tanto nas mãos, como no coração. Tinha sido um reencontro inesquecível, sem dor nem rancor, apenas brilho e redenção. És das pessoas mais espectaculares que conheci até hoje. Melhor. Até ontem à noite, pois já não sei em que te poderás tornar ao longo deste dia. Dizes-me sempre que é um longo dia, e com um rio fino e gélido, contemplo nos cantos dos teus olhos a aflição com que te exprimes. Já disse para não te preocupares. Uma só vida partilhada a dois não dá para essas incertezas e inseguranças, e para te ser muito sincera, o que me logo atraiu em ti foi o teu olhar. É diferente de todos os outros, é contagiante e inocente. Mais que isso, é puro e sincero, e tu sabes que eu convivo com a sinceridade. Somos velhas amigas. Mais vale um sorriso e poucas palavras, do que muitas certezas e poucos resultados, e tu, sem dúvida, demonstra-lo bem! Espero que esses simples e neutros sentimentos estejam sempre presentes dentro de ti e que nunca possam voar para o "além". Esta é a minha mensagem, antes de partir para o Mundo lá fora, enfrentar a realidade nua e crua e desprovida de sentimentos.
Era uma manhã. O sol já ia alto. E eu, gélida e pálida olhava o mar. Dele já não conseguia tirar partido e, a moléstia e solidão, já me consumiam. Tinha acabado de vir de uma das piores fases da minha vida e confrontar frente a frente, peito a peito a desonestidade que o tempo me aguardava para este preciso dia. Eu já nem incluo no meu dicionário a palavra "azar", pois tenho a certeza que nada na minha vida necessitará de a utilizar. Os próprios medos e fissuras que me trespassam são todos sinónimos dessa palavra, e para completar o meu "consultor mudo" prefiro inserir palavra a palavra, rabisco a rabisco os significados de tão protestantes enigmas. Congelei. Uma voz pálida e quebradiça ecoou nos mais profundos cantos do infinito. Não conseguia perceber de onde vinha, para onde se dirigia e, muito honestamente o que dizia. Apenas se soltavam súbitos murmúrios, códigos que não conseguia decifrar. Foi então que voltei a face para o meu diário, no qual tentava escrever algo que me saísse da alma, e para meu espanto deparo-me com uma nítida e honesta frase: "O mar e o céu difundiram-se num só, e tu difundir-te-ás também". Pensei o que seria, remexia o meu puzzle cerebral e as peças acabaram por se encaixar na perfeição como se fossem comandadas por um robot. Era a minha hora. A hora de o meu espírito e a minha alma terrena se difundirem num só. Do alto, do leve e altíssimo céu, surgiu um anjo. Melhor que isso. Um Deus. Era um Deus, eu sentia que sim e nada, mesmo nada conseguia contrariar os meus pensamentos. "Depois de tanta dor e de tanto sofrimento, com certeza que deve achar que mereço um lugar calmo, solene e sagrado", pensava eu, gesticulando os lábios tremulamente com um misto de alegria e um arrepio que me subia pela espinha acima. Uma mão dirigiu-se na minha direcção para me auxiliar, e outra empurrou-me por trás para dar impulso à minha entrada. O tempo não se enganava e o dia já estava contado. Uma nova vida, um novo reino, uma nova casa me tinha sido ofertada, e eu nunca mais esquecerei todos estes "deliciosos" momentos, como um sinal de uma passageira e terrena vida de fraco valor.